«Transformação consoladora: Portugal ressurge do seu abatimento»(*)



«Quem conheceu as ruínas do primeiro quartel deste século, quem viu atirar ao edifício sagrado das crenças antigas o camartelo demolidor, quem ouviu os gemidos dos proscritos e sentiu ao vivo a desolação que pairava na casa de Deus, e vê agora como das ruínas se vão erguendo arrojadas construções, quem vê de novo entrar na escola o nome de Deus, quem vê restabelecidas as relações normais com a Santa Sé e assente o estatuto jurídico da Igreja, numa ordem nova que não afronta ninguém, mas faz justiça às tradições cristãs de Portugal, quem vê o desenvolvimento, que bem podemos chamar ressurreição, das missões católicas nas colónias e no Padroado [do Oriente], não pode deixar de sentir uma funda impressão de surpresa e de exclamar "digitus Dei est hic"-"aqui está o dedo de Deus". Sim, passou sobre nós a mão de Deus, e passou sobre nós, porque passou no meio de nós a Mãe de Deus. E, se levantarmos os olhos do passado doloroso que acabamos de evocar e os fixamos no presente, contemplando o panorama internacional, a nossa surpresa sobe de ponto. Uma trágica cinta de fogo e de sangue envolve o mundo; as nações do velho e do novo continente estremecem batidas pela catapulta da guerra;(...) reina a desolação e a miséria em países ainda ontem prósperos e poderosos; e no meio desta convulsão universal, deste tremendo naufrágio do mundo que se diria civilizado e progressivo, a pequenina nau portuguesa continua a singrar serena e confiante, como se o vulcão destruidor se não tivesse desencadeado e não açoitasse impiedosamente sobre os mares. Como explicar tão grande portento?

Seria injustiça desconhecer a acção vigilante e patriótica dos nossos governantes, bem dignos da gratidão do país pela prudência e pelo zelo com que procuram manter-nos afastados da guerra; mas a situação é tão delicada, tão imprevistas as complicações, tão enevoado o horizonte diplomático, que sem um auxílio especial do céu baldados seriam todos os esforços. É grande de mais a procela para que forças humanas a possam debelar. Bendizendo pois as canseiras daqueles que devotamente zelam pelo bem público, temos que buscar mais alto o segredo da bênção misteriosa que as valoriza e lhes garante a eficácia.

Haverá algum português com fé que não reconheça na nossa situação privilegiada um revérbero daquela luz que a Santíssima Virgem veio trazer a Fátima, que fez incidir na alma dos pastorinhos e por eles sobre o mundo? Não é necessário ter fé; basta contemplar o que em tudo isto há de extraordinário para sentir e reconhecer que um poder mais alto se levanta e um coração terno e misericordioso vela amorosamente por Portugal. (...)»

(*)Excertos de uma Carta Pastoral escrita em 1942 pelos bispos portugueses, e destinada a assinalar as «bodas de prata» dos acontecimentos de Fátima



Associação República e Laicidade